Iraní Rodrigues Bandeira
Inicia-se mais uma semana, como outra qualquer. A correria do trabalho, o cuidado com a família, dia após dia. Apenas um telefonema na madrugada muda todo o curso de nossas vidas.
Nesse telefonema a triste notícia: “nossa mãe faleceu”.
Não tem muito em que pensar, apenas amanhecer o dia, pegar a estrada. Serão quatrocentos e oitenta quilômetros para pensar o que fazer a partir de agora. Um pensamento não me sai da cabeça: agora não tenho mais pai nem mãe.
Após horas intermináveis, até que enfim amanhece o dia para darmos início à nossa viagem. Viagem essa que parecia não ter fim, a pista cada vez mais longa, até o encontro com a família no velório, o carinho e o abraço dos amigos que vem nos consolar, pois a dor da separação é grande. Para minha surpresa o local encontrava-se repleto de pessoas. Algumas conhecidas, outras não.
Encosto-me na urna, como se um filme passasse em minha mente. Entre tantos os momentos que vivemos juntas lembrei-me dos mais alegres, das festas de fim de ano, nossas viagens, das compras no mercado, até mesmo das festas da escola onde ela lecionava, pois sempre que podia ela nos levava.Houve momentos tristes também em nossa caminhada, tribulações, aflições, desentendimentos, mas em nenhum deles eu respondi a ela ou tratei-a mal. Procurei em todos meus pensamentos, em minhas lembranças , mas não encontrei nada que me acusasse, que me trouxesse remorso.Fiz tudo enquanto pude, em vida.Até o mais simples: um beijo.
Por um momento parecia até que ela ainda estava respirando. Tornei a olhar. Foi apenas uma impressão. Nesses últimos anos minha mãe foi acometida por enfermidades. Muito sofreu,mas agora ela estava ali, calma e serena, como se apenas dormisse, como sei que dorme o sono dos justos e, ambas, estávamos ali, juntas pela última vez nesta vida, e em paz.
Sobre a autora:
Iraní R. Bandeira nasceu em Adamantina em 1972, trabalha atualmente na E.E.Dr. João Thienne como professora de Língua Portuguesa.

