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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Compras na Capital

Lázaro Jair de Paula

Queria eu comer aquele pedaço de bolo que estava jogado em uma sacola, na lixeira.
Olhando com olhos de fome, como todo menino que catava latinha para vender. Já cansado do sol escaldante, daquele dia de verão, com os pés cheios de calos, com sapatos furados... Dava dó. Se, por acaso, pisasse em uma moeda, daria para saber se era cara ou coroa.
Mergulhado no suor do sol escaldante, já chegava a tarde de verão, tinha ido à capital em busca de sonhos. além de conhecer aquela tão famosa cidade, compraria alguns objetos para revender e lucrar alguns trocados. O dinheiro que levei, mal dava para comer. Pensava: "Se eu gastar com comida não levarei nada. Está tudo muito caro por aqui."
A fome apertando, assim como apertava aqueles miseráveis trocados no bolso. Tinha medo que alguém os roubasse e meus sonhos iriam por água abaixo.
No entardecer, já cansado, nada tinha comprado. A sacola estava vazia... tal qual minha barriga.
Resolvi sentar-me, para descansar um pouco, na primeira calçada que avistei. Sonhava com o prato de arroz com feijão que minha mãe fazia, e também, com o ovo frito, cuja gema mais se parecia com uma bola de ouro. Olhava para o céu lembrando do sol escaldante do meio dia.
De repente, olhando para a lixeira,  me lembrava daquele pedaço de bolo de fubá sobre a mesa do café da manhã, que minha fazia. Não era o meu forte... Nunca gostei de bolo de fubá! Queria mesmo era comer bolos com recheio, cobertura e chocolates. Mas, nunca tinha. Era sempre aquele bolo de fubá.
E, minha mãe brigava comigo. Dizia: "Coma!" Isto é para matar a fome.
Vocês nunca ouviram aquele ditado: "Quem não tem cão, caça com gato!"

Sobre o autor:

Lázaro Jair de Paula é professor de Língua Portuguesa e trabalha na rede estadual de ensino de Americana, Santa Bárbara d'Oeste e Piracicaba.

sábado, 27 de junho de 2009

QUE REGIME O QUÊ?

Sérgio Itamar Peres Marques*
Regina Goes de Mello*

Parecia cena de Malhação, mas não era. Quando o inspetor da escola viu uma aglomeração no canto do pátio, não teve dúvida: "Pronto, mais uma desses malditos moleques, sem educação!"
Aproximando-se mais, pode notar que não era uma briga, pelo menos não tinha ninguém caído, sangrando, chorando; apenas os palavrões já costumeiros.
E não é que no meio daquele “vuco-vuco” estava o magrelo Edinho entre os afortunados do pedaço!
As meninas, meio ao longe, observavam as calorosas insinuações endereçadas ao menino indefeso que parecia calmo. O inspetor não estava entendendo nada, apesar de não ser uma briga, propriamente dita, devia ser algo preocupante e entrou no meio para apurar.
Ficou impressionado com o que descobrira: os meninos fortões, musculosos, até obesos, queriam a todo custo que o Edinho contasse o que fazia para ter um corpinho daquele, de bailarino espanhol, e bancar o galã com as meninas que viviam em torno dele; mas ele nem lhes dava a mínima.
- O que será que esse cara come?
- De certo não janta!
- Ou não almoça!
- O cara não come hambúrguer, nem toma refri!
- É! Deve seguir direitinho esses manuais publicados em revistas e jornais por aí...
- Isso aí, é só light, integrais, cereais...
- Qual é cara? Que regime é esse?
Ao que o intimidado moço magro não se conteve em ouvir tanta asneira, arrematou:
- Que regime o quê? Lá em casa, há muito tempo a comida tá escassa, todo mundo desempregado... Se não fosse a merenda da escola!


Crônica elaborada a partir de uma notícia de jornal.


*Autores:
Sérgio Itamar Peres Marques é professor de Língua Portuguesa, atualmente exerce a função de Professos Coordenador de Ciclo I, na EE. Profª Jadyr Guimarães Castro.
Regina Goes de Mello é professora de Geografia, atualmente exercendo a função de Professor Coordenador de Ciclo I, na EE.Profª Sinésia Martini.